A palavra que primeiro vem à mente quando se visita o Museu do Futebol no Estádio do Pacaembu é subversão. Pelo menos ele subverte a visão que se tem de um museu: local em que se expõe objetos e documentos do passado. Ele não é só isso. Ele é futurista, psicodélico, tecnológico. É um túnel do tempo digno de Júlio Verne.
Ao chegar, compra-se o ingresso na bilheteria, guarda-se a mochila no guarda-volumes e embarca-se na viagem de volta ao passado na espaçonave museológica. O prédio é dividido em salas que levam nomes relacionados ao esporte que ele contempla. A primeira é a Grande Área. Duas paredes forradas com fotos de objetos que fazem a cabeça do torcedor. Destaque para o retrato de Leônidas da Silva, inventor da “bicicleta”, beijando a mão da Madre Teresa de Calcutá. Representação muito adequada dessa nossa quase religião esportiva. Em seguida, sobe-se uma escada rolante e depara-se com ninguém menos do que o rei... do futebol. Como que refletido em um espelho mágico, uma tela plana vertical, Pelé apresenta o espaço em três idiomas – português, espanhol e inglês (très chic). (Eu sou ele? Ele sou eu?) Ao deixar o Pelé Alice, adentra-se a “sala” Pé na Bola, que não passa de um corredor com telas planas mostrando pés infantojuvenis conduzindo sua excelência, a bola. Pés descalços, calçados, sonhadores. Poderia-se dispensar a apresentação do então prefeito (governador?) José Serra na primeira tela do recinto...
Então, chega-se à sala que novamente evoca a religião: Anjos Barrocos. Parecem mais seres fantasmagóricos, nove telas de hologramas de Guerra nas Estrelas, alternando 25 “artistas” da bola escolhidos entre muitos para figurar nessa constelação.
Continuando a jornada, chega-se à sala dos Gols, na qual encontra-se testemunhos gravados em vídeo de personalidades, como Soninha, Paulo Bonfá, o recém-saudoso Armando Nogueira, entre outros. Em frente aos vídeos, encontra-se o áudio, mimetizado em rádio antigo, no qual se pode sintonizar remotas narrações futebolísticas. Surpresa com a narração de Ary Barroso – ele mesmo, o compositor –, emoção com a narração de Osmar Santos – “Pimba na gorduchinha!”. Destaque para o jogo visual da tela que mostra palavras dançando vertiginosamente, acompanhando as narrações.
A sala Exaltação parece uma instalação de Bienal de Arte. Lembra uma arena, na qual imagens de torcidas diversas ricocheteiam por todos os lados. Então, chega-se à sala Origens. O texto de introdução soa como discurso de esquerda. Algo como “o futebol saiu das mãos da elite opressora e caiu no colo do povo oprimido”. Na eterna busca de identidade, a origem da famigerada tríade: futebol, carnaval e mulher. Futebol... carnaval... mulher...
Fotos antigas forram as paredes. Mas lembre-se de que não estamos num museu convencional. Começa-se a ler as legendas e as crianças presentes começarão a movimentar as fotos. “Oi, girando! Oi, na roda gigante! Oi, girando! Oi, na roda gigante!” Entorpecido, desiste-se de conhecer o passado e aprecia-se o lúdico. Contenta-se com um vídeo narrado pelo ator Milton Gonçalves, contando a história do futebol no Brasil. Ao lado, fica a sala Heróis. Num telão performático, que muda e gira (“Oi, girando!”), são mostrados rostos históricos, bem ao gosto da trupe da Semana de 22. Depois da jornada dos heróis nacionais, entra-se na sala Rito de Passagem. Vive-se (ai, a magia do túnel do tempo) a agonia da queda na Copa de 1950. Está-se no jogo final contra o Uruguai, e escuta-se a voz gutural de Arnaldo Antunes, embalada pelo silêncio da multidão e o som das batidas de um coração, que acompanham o avanço de Ghiggia contra o gol brasileiro. “E o pulso ainda pulsa.”
E chega-se à sala Copas do Mundo. Poluição visual fantasiada de nave espacial. Reflexo do mundo moderno, avalanche de informações que exaurem e intimidam. Exausto, passa-se, quase sem ver, a sala Pelé e Garrincha. Vaga reminiscência de frases de Armando Nogueira. Depois de atravessar uma “ponte”, está-se voltando para o presente, como náufrago buscando ar. Só passa-se pelas salas Números e Curiosidades e Dança do Futebol. Na Jogo de Corpo, partidas virtuais são travadas pelas crianças eufóricas, desiste-se de testar sua potência de chute ao gol por conta da quilométrica fila e assiste-se ao Ronaldinho Avatar Gaúcho contracenando com um esqueleto 3-D. Vislumbra-se uma homenagem ao Pacaembu. Pressente-se que existe uma loja de suvenires e café, mas passa-se reto para pegar de volta a mochila. Se a visita for num sábado de sol, tempera-se com pastel de feira e rega-se com caldo de cana. E, ainda assim, fica-se com vontade de voltar.
Museu do Futebol
Praça Charles Miller, s/n – Estádio do Pacaembu – São Paulo/SP
Tel.: (11) 3664-3848
Ingresso: R$ 6,00
Estudantes com carteirinha, aposentados e maiores de 60 anos: R$ 3,00 – mediante comprovação.
Público não pagante: crianças até 7 anos, professores da rede pública mediante a apresentação de holerite e RG e estudantes de escolas públicas municipais e estaduais mediante visitas agendadas.
Texto feito para o curso de Jornalismo Literário do Senac - São Paulo, professor Guilherme Azevedo
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