domingo, 24 de março de 2013
Milagres
Tinha ciúmes de um retrato de uma menina risonha, caprichosamente emoldurado, o qual meu pai deixava em uma das prateleiras de sua pequena biblioteca em lugar especial. Mais tarde descobri que a menina chamava-se Isildinha e não era nem mesmo parente distante. Meu pai a chamava carinhosamente de "santa". Ela morrera ainda criança por causa de uma doença grave e lhe atribuíam "milagres".
O ciúme transformou-se em admiração e num forte desejo de juntar-me a ela para santificar-me e ganhar lugar de destaque entre as coisas de meu pai. Para mim, a simples morte precoce já era uma "promoção" automática para a santidade. Conhecia outro "santo" na mesma condição da do retrato.
Nossa família possui uma modesta capela em cemitério antigo paulistano. Ela jaz solene entre mausoléus negros, habitados por restos mortais renomados e por estátuas de grandes mestres.
Eram divertidas as visitas em família à necrópole. Como um ritual sagrado, o pequeno altar era limpo e enfeitado com flores frescas que sorriam tal qual seus ilustres habitantes estampados nas fotos. Não os conhecia, pois já moravam ali muito antes de eu nascer, porém intuía que mereciam todas as homenagens.
Depois da obrigação cumprida nos era imprescindível passar pelo "mausoléu" oriental (que só há pouco tempo descobri que é chinês) próximo à capela. Em forma de templo, era um grito vermelho em volta do cinza-negro do lugar. Gostávamos de observar e, principalmente cobiçar, o verdadeiro banquete deixado aos antepassados: chocolates, balas e frutas. Eu imaginava os tais antepassados aparecendo à noite para deleitarem-se com as oferendas e comentarem sobre a vida.
Fazia parte do tour uma passada pela capela na mesma quadra que a da família, um pouco mais a frente. Ela era muito similar a nossa exceto por alguns "detalhes". Era iluminada por uma imensidade de velas que a igualavam a uma igreja. Depois de um início de incêndio, proibiram o seu uso. Aproximando-se da porta, podíamos ver balas presas ao gradeado. Eram para Marquinho, "companheiro" de Isildinha na morte precoce e na santidade. O menino recepcionava os visitantes com um amplo sorriso representado numa foto amarelada junto às datas de nascimento e morte.
Essas "divindades" pareciam felizes e isso aumentava minha vontade de unir-me a elas. Dentro dessa capela, em volta do altar, havia muitos objetos em cera imitando membros humanos: braços, pernas, mãos, um emaranhado de mutilações que me arrepiavam. Eram ex-votos deixados ali em agradecimento. Como aquela visão não me gratificava, ao contrário, causava-me agonia, repensei a aspiração que inicialmente os santinhos haviam me despertado.
Meus pais chegavam a rezar na porta do túmulo. Marquinho recebia tudo com aquele sorriso pueril e nesses momentos eu o contemplava e voltava a ansiar aquela condição. Imaginava-me dentro da capelinha, aninhada num abraço ceráceo ou ainda transformada em retrato com um sorriso franco, finalmente fazendo parte desse séquito dos precocemente retirados do convívio terrestre.
De qualquer maneira, com o tempo deixei de acreditar nesses "santos" urbanos. Não me levaram a desfrutar de sua companhia, preferiram a de meu pai.
(março/2006)
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SIL, OBRIGADA PELA DICA. JÁ ACERTEI MEU BLOG. NÃO PRECISA SE "ASSUSTAR"...TODO MUNDO ERRA E EU TAMBÉM...RSRSRSSRS .
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