
O Dicionário
Certa tarde, no intervalo da brincadeira solitária no quintal, meu pai chamou-me. Pelo tom era mais alguma “aula” do professor austero. Suspirei e resignei-me, preparando-me para uma bronca e um beliscão se não aprendesse a lição satisfatoriamente, o que não raro acontecia.
Ao aproximar-me fui surpreendida com o ar descontraído que não combinava com o pai que conhecia. Ele declarou numa festividade mal disfarçada em seriedade professoral que me apresentaria ao “pai dos burros”.
Estranhei o nome do tal que me seria apresentado. Achei-o bem desagradável na verdade. Fiquei aliviada ao constatar que era apenas um gordo volume de capa preta e questionei o porquê do nome bizarro. Ele explicou-me que o verdadeiro nome era dicionário, “pai dos burros” era apelido.
A partir disso ele descortinou-me os mistérios do livrão, portador de todas as palavras do idioma que eu já amava. Não sei se me maravilhei mais com a novidade ou com a súbita paciência paterna.
Ficamos longos minutos folheando suas grossas folhas de letras pequenas. Eu bebi todas as informações com voracidade e queria devorá-lo todo aquela tarde mesmo. Foi o professor quem tirou a órfã dos braços do pai dos ignaros. Pediu-me calma. Eu não precisaria decorá-lo. Alertou-me que era um livro de consulta e que eu deveria tê-lo sempre à mão, pois me seria muito útil vida afora.
Tempos depois foi a professora quem nos trouxe o reservatório de verbetes em versão míni e repetiu a aula de meu pai. A didática dela era melhor, mas não tirou o encantamento da lição paterna. Comprovei que ele me havia ensinado direitinho.
Na faculdade conheci novo apelido, bem mais simpático, para o velho companheiro – jardim da sabedoria. O rechonchudo alfarrábio negro permanece em minha biblioteca. Obsoleto, superado por Aurélio e Houaiss, ainda conserva seu charme. Continuo consultando-o mais pela carga afetiva do que pela eficiência que pode me proporcionar.
Meu pai não podia supor a importância da inusitada palestra daquela despretensiosa tarde. Aquela preleção é o verbete que encabeça o meu glossário particular e sua definição é “inestimável presente”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário