Passando pelo corredor, ative-me a um retrato pendurado na parede. Retrato antigo, trajes e rostos remotos. Por um instante pensei estar faltando alguém...
Lá estava ele na sala. Sorriso pontuado de falhas. Vestia terno, colete e boina sempre. Uma bengala para sustentar o peso secular. Consultou o relógio de bolso e convidou para uma visita à padaria. Consenti com um meneio de cabeça. Fomos. Estava desacostumada a acompanhar aquele andar lento, irregular. Enquanto caminhávamos, ele pigarreava. Cuspia com igual intensidade fluidos e impropérios. Gemia como a carregar correntes. Sentados no balcão da padaria ele ofereceu uma “cirvijinha”. Sabia que eu não bebia, mas sempre tentava. Sentenciou, como de costume, que era para escolher entre guaraná (qualquer refrigerante para ele era guaraná) e coxinha. A frustração de escolher entre as guloseimas não era maior que o prazer de ser declaradamente a neta preferida. Depois de mais algumas “cirvijinhas” e cusparadas, a comoção etílica chegou às lágrimas. Fez apologia à família e à "bubança". Um eterno monólogo. Ainda insistia para que eu o chamasse de nono... Não adiantava, aprendera a chamá-lo simplesmente de "vô", à brasileira e agora ele queria a identidade italiana. Tarde demais.
Usava a mesma roupa por mais de uma semana. Banho era luxo. Para ele tudo era "limbo" infinitamente. Porém nada tirava seu charme de personagem do início do século XX (pelo menos pra mim).
Eu quis ir embora. Ele me sorriu com os sobreviventes hercúleos à mostra. Quebravam nozes natalinas e abriam garrafas cotidianas. Ele quis ficar para beber mais, jogar dominó em algum bar, enfim, continuar o monólogo. Parti. Ao chegar em casa, olhei o retrato novamente. Estava completo. O velho de terno, colete, relógio de bolso, boina e bengala estava bem no centro. Abanei a cabeça tentando esvaecer lembranças. Que bobagem... nunca deixara de estar lá.

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