
Bolinhos de Chuva
Sento-me à escrivaninha. Bloco de papel à frente. Questiono-me de como começar um bilhete suicida. No aparelho de som, o Legião anuncia: “Quando tudo está perdido sempre existe um caminho.” Pra que deixar bilhete? Tirem suas próprias conclusões! Ainda nem decidi como morrer. Cortar os pulsos? Fora de questão. Tenho horror a sangue. Veneno? Deve doer. Queda de edifício? Moro em casa térrea. Atropelamento metroviário? Arrepio-me só em pensar. Talvez gás ou comprimidos... O além é temerário, mas, francamente, não deve ser mais terrível que minha vida aquém. Penso em minha mãe. Não. Penso no útero materno. Deito-me no chão em posição fetal. Volto à escrivaninha e tento rabiscar alguma coisa. No toca-cd, a voz do vocalista parece mais lúgubre. Se encontrarem esse manuscrito, certamente farão conjecturas psicológicas das quais nem Freud desconfiaria.
Tocam a campainha. Amasso a folha, calo Renato Russo e atendo a porta. É seu Alexandre, o baixo, vizinho aposentado. Guardião da rua, da moral e dos bons costumes. Um desocupado. Ofereceu-me seu sorriso de dentadura mal fixada e um abaixo-assinado. A cabeça calva resplandece em contraste ao tom escuro da tinta acaju que colore os remanescentes laterais e o bigode. A pança protuberante é mantida pelo carinho da esposa quituteira e pelas louras geladas da “padoca”. Era encanador. É voraz devorador de almanaques e esse hábito o faz apoderar-se dos assuntos como especialista. Alexandre, o expert, acena-me a dita lista. Pedido para canalização de um córrego. Pela enésima vez. Creio que não canalizarão nem nesta, nem noutra vida. Porém, Alexandre insiste. Alexandre é engajado. Miro a lista, miro Alexandre. Penso numa estratégia para despachá-lo e voltar ao Legião Urbana. Esqueço-me que, tal qual seu homônimo, Alexandre é estrategista experiente. Mais rápido, percebendo minha indiferença, dispara o convite: saborear bolinhos de chuva (que Teresinha, a esposa, acabara de fazer) e discutir melhor a matéria. Excelente suborno. Os quitutes de Teresinha valem até uma palestra enfadonha com Alexandre, o político. Valem até o adiamento de meus planos suicidas.
Na próxima enchente, atiro-me nos braços do córrego. Sem bilhete e, com um pouco de sorte, sem corpo. Morte bucólica. Sorrio para Alexandre, o sábio. Ele devolve-me um sorriso triunfante, tal qual o guerreiro em seu cavalo. Brado: “Aos bolinhos!” e saio.
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