
O Voo
Depois de uma hora de atraso, finalmente acomodei-me na poltrona da aeronave. Ou melhor, incomodei-me. O pescoço não encontrava encaixe e as pernas invadiam o corredor. Sem problema, a viagem era curta. Ao contrário do que pode parecer, não tenho medo de avião para pegar pela primeira vez a mão de alguém. Mesmo porque viajava sozinha e sentei-me ao lado de um casal gay introspectivo que parecia recém-saído de uma Fashion Week. O “aeromoço” é que ficou mais bonito. Assim, eu e meus vizinhos de assento relaxamos com a paisagem morena e máscula, capaz de eriçar pelos tanto quanto a decolagem. A tensão voltou com o choro contínuo de uma criança, porém a trilha sonora irritante serviu-me de cantiga de ninar, tamanha a exaustão. Tudo bem, a viagem era curta. Despertei com a prova de que o Olimpo existe servindo-me a lauta ceia: bolinho, biscoito e suco. Deliciávamo-nos com o banquete, quando o piloto, da cabine de comando com voz de locutor, avisou que passaríamos por uma pequena turbulência. Não foi tão pequena assim. O pássaro metálico sacolejou, parecendo desprender-se da abóbada celeste. Uma passageira mais aflita berrou como se o piloto tivesse sumido. Cravei as unhas nos braços da poltrona já que não podia cravá-las no bíceps do comissário de bordo. A turbulência passou. Como diria o poeta, voar é preciso, viver não é preciso. Eu concordo e acrescento: voar e viver são assustadores. Chegamos sãos e salvos. O casal gay dava-se as mãos, a criança gargalhava e o deus grego de bordo se despedia com um sorriso Antonio Banderas. Viagem longa...
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