
Delírios Metroviários
O vagão não estava cheio. Eu era a única pessoa em pé. Segurando a pasta e a bolsa mantinha minha pose universitária, orgulhosa, como se alguém se importasse. Estava aliviada por terminar mais um brilhante trabalho de análise literária, merecedor de uma bem-vinda nota mediana. Pensava na colega que desembarcara na outra estação. Mais um item no rol dos meus pecados: inveja. Ela fazia faculdade por hobby, trabalhava num grande jornal em que não consegui ser selecionada para um emprego e faria excelente casamento em breve. Àquela época as moças ainda eram casadoiras. Talvez ainda sejam, quem sabe. Eu vislumbrava um futuro de professorinha medíocre: pensa que sabe muito, porém não consegue ensinar nem o pouco que sabe. O metrô deslizava e os pensamentos viajavam apoiados apenas pela barra de metal. Os olhos passeavam pelo vagão: uma gestante com ar cansado, um adolescente com olhar perdido, um velho de sorriso sacana, uma evangélica compenetrada na leitura bíblica. Pura harmonia e civilização. Subitamente senti uma vertigem: Bandeira, Drummond, a professora de literatura, minha colega e o velhote tarado formaram um corpo de baile e dançaram em volta de mim em velocidade cada vez maior até que não distingui mais os vultos e tudo enegreceu... Fui do delírio ao chão em segundos, derramada, reduzida a uma poça de carne descontrolada. Ao abrir os olhos, deparei-me com os harmoniosos e civilizados companheiros rodeando-me, ao mesmo tempo apreensivos e eufóricos. Eu acabara de instalar o caos. Uma jovem segurava minha cabeça e perguntava se eu estava bem. Eu tentava entender o que acontecera. Sentia-me em outra dimensão. Suava frio. Ouvi alguém proclamar que era ataque epilético. Seria uma honra comungar da mesma enfermidade que Machado de Assis, mas à menção de desenrolarem minha língua levantei com a ajuda da evangélica que gritava: “Levanta em nome de Jesus!”. Amém. Não queria ninguém enfiando o dedo na minha boca, pelo menos não naquelas circunstâncias. Continuava zonza, sem atinar com o que ocorrera, sem conseguir responder à jovem que me auxiliava. Nunca desmaiara antes. Seriam as ardentes emoções da minha vida? Seria um tumor cerebral? Pelo menos ganhei um assento. Entregaram-me meus pertences e palpitavam: “Vamos acionar o alarme de emergência e chamar um funcionário.” Não! Não era preciso. Eu só queria sair daquele pesadelo e desmaiar na minha cama. O rapaz que cedera lugar, praticamente ajoelhado a meus pés, dizia-me que era bombeiro, que eu não me preocupasse, que poderia confiar, que ele me acompanharia pra onde eu quisesse. Proposta perigosa... pra ele. Minha mãe assustou-se quando me viu chegar escoltada por um estranho. Ela não sabia que era um anjo da guarda e que eu batia minhas asas do desejo.
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