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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Ética


Era mais uma excursão sacolejante por um veículo da eficientíssima companhia de transporte coletivo. Era mais um vendedor ambulante desculpando-se por importunar nossa viagem e por ter de sustentar a numerosa família oferecendo-nos mercadoria de excelente qualidade a preço módico. Mais do mesmo. Contudo, a cena prosaica suscitou uma conversa entre dois jovens passageiros, a qual escutei com curiosidade:
– Esse cara me lembrou uma vez que um garoto entrou pela porta de trás do busão com um tabuleiro de doce. Ele deixou num banco e foi falar num sei o quê com o cobrador. Num tive dúvida, enchi os bolsos. O trouxa nem percebeu.
Pude ver pelo vidro da janela um sorriso franco esperando o comentário do interlocutor:
– Que é isso, meu! Num foi certo, não!
– O que que num tá certo? O moleque é que é vacilão!
– E você é mó mão grande, tá ligado!
– Mão grande não, oportunista. O mundo é dos espertos, veio.
– Num me conformo! O pivete tava trabalhano, mó sacrifício, pegar num sei quanto busão pra sobreviver, vem qualquer um e...
– Epa! Qualquer um não, veio. Tá me tirando?
– Tô, por quê? Se fosse alguém pagano de boy, um banqueiro, um político, vá lá. Mas um ferrado como nóis, veio! Qual é?!
– Ah! Então pôr ferro na cara de bacana é beleza? Isso é papo de noia, mano. Se liga, ta falano besteira.
– Quem só faz besteira é você!
As vozes, a esta altura, já estavam bem alteradas. Todos nós, então, assistimos atônitos aos dois, entre socos e pontapés, saírem do banco em que estavam sentados e invadirem o corredor, gastando todo o vocabulário de impropérios e palavras pouco elogiosas que conheciam.
O motorista prontamente parou a máquina. Tentou demovê-los apenas com palavras, mas foi obrigado a dirigir seu corpanzil de 1, 80 metro aos contendores. A significativa presença os fez retomar a calma. Desdobraram-se em desculpas para não serem expulsos do coletivo. O condutor aceitou que continuassem ali desde que não houvesse mais desavença em seu carro. Mais algumas desculpas e os dois assentaram-se tranquilos, o motorista retornou a seu posto e prosseguimos o trajeto. A tensão se dissipara e já quase esquecíamos o ocorrido quando um dos adversários se pronunciou mais uma vez:
– A mãe vai saber disso, pode deixá.
– Faz isso não, mano. Pra que vai dá aborrecimento pra ela?
– Se você sabe que é aborrecimento, por que fica quereno dá uma de gostoso?
– Também não te conto mais nada!
A viagem continuou em silêncio, interrompido apenas quando alguém começou a ouvir no celular, sem fone de ouvido, notícias de CPI, cassações, denúncias novas e prisões. Mais do mesmo.


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