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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Saúde

Eu, assim como dez entre dez brasileiros, abomino hospitais e tudo relacionado a eles. Graças a isso cometia um erro recorrente: só procurava um médico quando “o bicho pegava”.
Foi o que aconteceu dia desses. Como bom assalariado fui parar num hospital público. Rapidamente percebi que a dor dilacerante que corroia minhas entranhas era a única que funcionava prontamente naquele P.S.
Aguardei, apenas algumas horas, num assento duro que me obrigava a um balé desajeitado na tentativa de encontrar conforto para meu mal. Talvez tivessem esperança que eu desistisse e fosse embora, mas era a dor que não renunciava.
Finalmente meu nome foi pronunciado e a voz pareceu-me celestial. Arrastei-me em cólicas à sala.
– Então, o que a senhora tem?
– É isso que vim descobrir, doutor... – respondi entre dentes num misto de raiva e dor. – Tenho uma dor aqui... – continuei, apontando a região das cadeiras. Sem levantar os olhos, o médico disse:
– É caso de ortopedia.
Encaminhou-me para a dita especialidade. Mais espera. Dessa vez quase desmaiei de dor. Chamaram:
– O que a senhora tem?
– Uma dor aqui nas costas que vem pra frente.
– Ah, não! Isso é rim. Aqui é ortopedia... problema nos ossos, sabe? Volte ao clínico geral.
Que maravilha... não bastava a dor, agora tinha sido tomada por burra. Não sei o que era pior.
Voltei à sala de espera. Eu era a própria bolinha de pingue-pongue. A dor cessava e depois retornava com mais força. Eu me retorcia. Comecei a gemer alto, não falava coisa com coisa, suava frio. Até os outros que esperavam (talvez com problemas mais graves que o meu) olhavam-me com piedade.
Chamaram-me novamente.
– A senhora novamente?
Enxuguei o suor frio da testa, esqueci que era uma dama e agarrei-me ao colarinho do médico:
– Tá doendo pra cacete, porra!!! O ortopedista disse que é rim! O senhor decide se é isso ou o raio que o parta!!!
Sem demora, o clínico prescreveu um exame de urina. Arrastei-me para fora da sala com um papel amarelo sem saber para onde ir. Tudo enegreceu... recobrei a consciência toda vomitada num canto do corredor. As pessoas passavam sem se incomodar com minha insólita presença. Um auxiliar de enfermagem aproximou-se. Eu ainda estava tonta, tentei balbuciar alguma coisa, mas não tinha forças:
– Já falei pra esses policiais não largarem indigente no chão do corredor! Tem que levar pra triagem... Haja paciência!
Afastou-se para pegar uma maca. Com muito esforço saí de fininho antes que ele voltasse. Desisti. Tomei chá de quebra-pedra ao chegar em casa (não me perguntem como). Tiro e queda. Fiquei livre da dor e do hospital.
Hoje sou fervorosa defensora da pajelança.
(09/2001)

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