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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Fruta da Estação




Não resisti. Comprei-os. Levei-os na lata de sardinha que convencionamos chamar de ônibus. Chegamos inteiros. Escolhi o mais robusto dos seis apertados em uma caixa de papelão, redondos e rubros. A dentada encontrou as lâminas suculentas, a saliva uniu-se ao mel e essa luxúria palatável transportou-me a outro tempo.
Volto a saborear minha pequena floresta encantada embrenhada na metrópole: cerejas, rosas, jabuticabas, camélias e romãs.
Saboreio unhas raspando língua por causa de um travoso caqui recém-tirado do pé. Igualmente sinto o gosto da rejeição agora esvaída diante da caixa cáqui.
Delicio-me com meu avô paterno chegando do bar com um par de danoninhos, com minha mãe aprontando a mamadeira de Neston, com meu pai engravatado portando um festivo doce de mocotó.
Saboreio minha irmã mais nova carregando-me na garupa do triciclo; o sorriso do meu avô a contemplar a bengala de pão oca, obra de um braço de 4 anos, a dizer: "Acho que passou um ratinho por aqui".
Delicio-me com a feira livre, pastéis e suco colorido em animais de plástico; com os banhos de banheira na cozinha (o banheiro era separado da velha casa); com as falastronas noites acompanhadas de arroz, feijão e sardinha; com pedaços de madeira, restos de trabalhos do avô, que serviam de brinquedo.
A pequena floresta encantada foi coberta por asfalto de estacionamento. Meu avô saboreia outro jardim. Meu pai desatou o nó da gravata. Minha mãe prepara mamadeiras... para minha sobrinha, a que agora deleita-se conduzida na garupa do triciclo.
Estalo a língua, pego novo caqui para vitimá-lo em mais reminiscências. Tecnicamente eu cresci e aguardo novos sabores.

Um comentário:

  1. Huumm, me deu até vontade de comer caqui e ir na feira!!! Parabéns pelos textos Sil...
    Bjos,
    Nádia

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