
O Primeiro
– Vem você comigo que é mais velha. – disse meu tio, insensível aos apelos de minha irmã menor.
Fui. Ora mergulhava num oceano de emoções, ora observava as ruas que, à noite, eram novidade. Chegamos a um prédio iluminado cheio de salas, umas vazias, outras ocupadas de gente e flores. Dirigimo-nos à reservada a meu pai.
Não quis encará-lo.
Lembro-me nitidamente das palmas que enfeitavam o recinto e que me encantaram. Queria minha mãe. Ela não pôde dar-me atenção. Havia uma multidão... talvez nem meu pai conhecesse todos. Quis fugir. Não passei do corredor. Sonho ruim. Garçons chegaram carregando grandes bandejas. Contive-me para não segui-los. Podia ter festas ali? Acompanhei-os com o olhar. Entraram numa das salas. Só consegui observar duas japonesas lamuriando-se ruidosamente. Acho que declamavam orações. Se já soubesse o que era surrealismo, compararia tudo a um filme de Buñuel. Mais tarde aprenderia que cada cultura demonstra a dor de maneira particular. Maravilhei-me com aquela demonstração. Tão diferente da maneira ocidental, a qual a tia misteriosamente torna-se atenciosa e serve guloseimas; primos que, num passe de mágica, falam do ausente com carinho e saudade; o tio que de repente é prestativo. Com a ausência da mãe dormiríamos fora de casa e bem tarde. Eu havia desejado isso intensamente... desejos são perigosos... Voltei à tona com alguém perguntando de meu avô. Onde estaria? Certamente em um bar próximo. Aquela figura era um caso a parte dentro da cultura ocidental. O tumulto cessava aos poucos dando lugar a um silêncio aterrorizante. Os adultos lembraram-se da minha existência. Era hora de ir. Minha mãe, então, desesperou-se... Iria ficar sozinha?! Ver aquela mulher transtornada, abalou-me mais que o fato que nos reunia ali. A mulher forte estava fragilizada, precisando de proteção?! Quem protegeria a mim?! Egoísta? Sim, mas eu tinha 11 anos! Sentiria mais culpa pelo alívio por ter sido ele e não ela. Outro parente ofereceu-se para ficar com ela. Parti do meu primeiro velório com a ilusão de que tivera sido a experiência mais extraordinária de minha vida. Ilusão realmente.
Não quis encará-lo.
Lembro-me nitidamente das palmas que enfeitavam o recinto e que me encantaram. Queria minha mãe. Ela não pôde dar-me atenção. Havia uma multidão... talvez nem meu pai conhecesse todos. Quis fugir. Não passei do corredor. Sonho ruim. Garçons chegaram carregando grandes bandejas. Contive-me para não segui-los. Podia ter festas ali? Acompanhei-os com o olhar. Entraram numa das salas. Só consegui observar duas japonesas lamuriando-se ruidosamente. Acho que declamavam orações. Se já soubesse o que era surrealismo, compararia tudo a um filme de Buñuel. Mais tarde aprenderia que cada cultura demonstra a dor de maneira particular. Maravilhei-me com aquela demonstração. Tão diferente da maneira ocidental, a qual a tia misteriosamente torna-se atenciosa e serve guloseimas; primos que, num passe de mágica, falam do ausente com carinho e saudade; o tio que de repente é prestativo. Com a ausência da mãe dormiríamos fora de casa e bem tarde. Eu havia desejado isso intensamente... desejos são perigosos... Voltei à tona com alguém perguntando de meu avô. Onde estaria? Certamente em um bar próximo. Aquela figura era um caso a parte dentro da cultura ocidental. O tumulto cessava aos poucos dando lugar a um silêncio aterrorizante. Os adultos lembraram-se da minha existência. Era hora de ir. Minha mãe, então, desesperou-se... Iria ficar sozinha?! Ver aquela mulher transtornada, abalou-me mais que o fato que nos reunia ali. A mulher forte estava fragilizada, precisando de proteção?! Quem protegeria a mim?! Egoísta? Sim, mas eu tinha 11 anos! Sentiria mais culpa pelo alívio por ter sido ele e não ela. Outro parente ofereceu-se para ficar com ela. Parti do meu primeiro velório com a ilusão de que tivera sido a experiência mais extraordinária de minha vida. Ilusão realmente.
Silvana, li os seus textos, alguns eu já conhecia, especialmente os relacionados a familiares, que são excepcionais e os outros seguem a mesma linha de sensibilidade na arte literária que tão bem te caracteriza. Quanto ao curso da Lasar Segall, ou seja, o laboratório literário é aos sábados às l8:30(início) e termina às vezes à 21:3o ou 22:00, o que para mim ficava muito tarde para andar sozinha, o que não é recomendado para uma "jovem velhinha"
ResponderExcluirBeijos Lucilia